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Ilanet.LinhasDeTransmissaoEmTensaoVariavelr1.2 - 05 Dec 2012 - 14:12 - GregorioIvanoff

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Power Gen Latin America

Operação em tensão variável de linhas de transmissão de corrente alternada

São Paulo, 13 nov 2003

Atas do Congresso


Sumário

Até que ponto progressos recentes em semicondutores de potência podem modificar os esquemas convencionais, atualmente utilizados, de transmissão de energia em corrente alternada? O presente trabalho discute uma possibilidade neste sentido que, ao que parece, não foi até agora considerada: a da operação, em tensão variável entre limites amplos, de linhas trifásicas de alta tensão. As principais vantagens previstas estão no melhor aproveitamento de amplas margens de segurança na isolação das linhas e também de folgas habituais na capacidade de condução de corrente em linhas com condutores múltiplos. Os objetivos do trabalho são estabelecer as características do modo de operação em tensão variável e definir os circuitos e equipamentos, baseados em semicondutores de potência, que devem ainda ser desenvolvidos para viabilizar a nova tecnologia.


Introdução

Serão apresentadas, a seguir, as idéias básicas de uma nova tecnologia de transmissão de energia elétrica por linhas de corrente alternada trifásica. A faixa de tensões considerada é de 100 a 750 kV, característica de redes interligadas regionais. No entanto, as idéias são também, em grande parte, aplicáveis para a transmissão ponto a ponto em tensões mais altas.

As vantagens principais a serem obtidas com a Operação em Tensão Variável (OTV) de Linhas de Transmissão de Tensão Alternada (LTCA) da forma aqui proposta, de agora em diante designada OTV LTCA, são:

a) Aumento substancial da capacidade de transmissão das linhas existentes. Para linhas novas, ou em casos de recapacitação, haverá redução de investimentos para uma dada capacidade de transmissão; b) Melhores condições de controle dos fluxos de reativos devidos à capacitância e indutância das linhas; c) Possibilidades adicionais de controle do sistema em regime quasi-estacionário (redirecionamento de fluxos de potência) e durante perturbações eletro-mecânicas (amortecimento de oscilações de alternadores).

A tecnologia pressupõe o uso de reguladores rápidos com semicondutores de potência e pode ser considerada como fazendo parte do conjunto de soluções para a Transmissão Flexível em Corrente Alternada (TFCA), conforme idéia geral proposta por HINGORANI em 1988. Em inglês, tal conceito tornou-se conhecido pela sigla FACTS, que corresponde a “Flexible Alternating Current Transmission Systems”.

A variação da tensão de operação tem em vista o melhor aproveitamento de amplas margens de segurança normalmente disponíveis na isolação das linhas. Tais margens, apesar de variáveis com as condições climáticas, estão presentes a maior parte do tempo, tipicamente em 99% do tempo total. A possibilidade de aproveitá-las torna-se viável pelo fato da OTV LTCA implicar necessariamente em providências para a eliminação de sobretensões de manobra e de rejeição de carga. A tecnologia permite, também, utilizar melhor folgas habituais na capacidade de condução de corrente de linhas de tensão mais alta, construídas com condutores múltiplos.

O aumento da capacidade de transmissão das linhas por elevação da tensão, no regime normal de operação do sistema, conforme assinalado acima, está sujeito a algumas restrições que variam com condições climáticas. É o caso, por exemplo, de limites aceitáveis de perdas por descargas parciais e de interferências eletromagnéticas.

A tolerância com relação a tais restrições pode ser maior no regime de emergência, resultando em maiores facilidades de operação nestas situações. As consequências disto devem ser levadas em conta no planejamento de sistemas em que existam linhas funcionando no regime de OTV.

Não se tem conhecimento, até agora, quer de implementações quer de publicações sobre a tecnologia OTVLTCA. Isto não deixa de ser estranho, tendo em vista suas vantagens. Parece justificável, nestas condições, abrir o debate sobre o assunto.


O que é

A OTVLTCA aplica-se a linhas de transmissão tomadas individualmente e consiste no acréscimo de reguladores de tensão sincronizados nas duas extremidades da linha, dentro do pressuposto de que as subestações, com todos os seus equipamentos, exceto os reguladores e os pára-raios de linha, continuem operando na tensão nominal.

Os reguladores - que podem ser realizados na forma de transformadores ou auto-transformadores com seletores de derivações - devem permitir a variação da tensão de transmissão entre limites amplos (70 a 120%? 50 a 150%?) conforme as condições de carga, de clima e o regime de operação, normal ou de emergência, do sistema.

Um exemplo prático de variador de tensão de potência elevada com seletores de derivações, construído com tiristores, é descrito por FAESTER e GORANSSON (1990).

A variação da tensão deverá ocorrer pela mudança simultânea das derivações nas duas extremidades da linha. Considerando o caso mais simples, em que não haja nenhuma compensação da queda de tensão da linha, as relações de transformação dos 2 transformadores serão variáveis, mas sempre iguais entre si. Os reguladores devem ainda incorporar os circuitos necessários para as operações de ligação, desligação e interrupção de curto circuitos da linha.


Precedentes

Além do interesse, mantido pelo autor durante muitos anos, na teoria dos transformadores e em diferentes esquemas de variadores de tensão alternada (IVANOFF, 1977, 1996), devem ser lembrados, entre as motivações que levaram naturalmente à idéia de OTV LTCA, os seguintes fatos e desenvolvimentos, todos amplamente documentados na literatura técnica:

  • Progressos na construção de linhas compactas (BARTHOLD, 1977, 1978);
  • Melhor conhecimento do fenômeno de arco externo sobre isoladores poluídos, submetidos a tensões alternadas em 50 ou 60 Hz (IEEE Working Group, 1977);
  • Progressos em aplicações de semicondutores de potência na transmissão de energia (HINGORANI, 1988);
  • Técnicas de controle de sobretensões de manobra pela pré-inserção de resistores (VAN SICKLE, 1939);
  • Características de perdas por descargas parciais em linhas de transmissão sob chuva (BARETSKY, ANDERSON, 1968).

Pesquisas sobre linhas compactas, levadas a efeito na década de 1970, demonstraram que os procedimentos usuais para a definição de distâncias isolantes de linhas de transmissão resultavam em margens de segurança excessivas, que podiam sofrer reduções consideráveis (BARTHOLD, 1977,1978).

Algumas destas margens eram simplesmente dispensáveis, tendo sido impostas em épocas passadas, nas quais o conhecimento sobre um determinado fenômeno limitante do comportamento da linha era precário. Em outros casos, eram introduzidas para fazer face a condições climáticas especiais, de ocorrência extremamente rara.

Isto se aplica, em particular, à distância mínima entre condutores de fases distintas. À medida que se construiam, no decorrer do presente século, linhas de transmissão de tensões mais altas, e vencidas, sucessivamente, as marcas de 220kV (~1922), 400kV (~1950), 500kV (~1965) e 750 kV (~1970) de tensão nominal, observações e estudos mais aprofundados levaram a um melhor conhecimento das chamadas oscilações galopantes dos condutores, provocadas pela ação do vento.

Com isto, as margens de segurança na distância entre condutores de fases distintas puderam ser reduzidas nas novas linhas de tensões mais altas. Com o correr dos anos, a relação entre a distância entre fases e a distância de arco na tensão de operação, passou de 10 vezes, em 220 kV, para apenas 5 vezes em 750 kV (BARTHOLD ,1977).

Linhas de tensões intermediárias, entre 138 e 400 kV, continuaram, entretanto, ainda por um bom tempo, a ser projetadas por procedimentos tradicionais, consolidados em normas de vários países, com margens de segurança reconhecidamente excessivas.

A isto deve se acrescentar, que as condições de vento capazes de produzir oscilações galopantes são ocasionais, em geral associadas à formação de gelo sobre os condutores, condições estas poucos frequentes mesmo em países de clima frio. No caso das distâncias mínimas entre condutores e terra, nos vãos entre as torres, é razoável supor que as atualmente prescritas em normas, além de levar em conta possíveis alongamentos devidos a curto circuitos e a sobrecargas, incluam uma previsão para as sobretensões de manobra e de rejeição de carga. No caso das mesmas serem eliminadas, há uma boa razão para que os valores atualmente aceitos possam ser revistos.

O comprimento das pencas de isoladores de suspensão, na faixa de tensões aqui considerada, é normalmente definido pelas sobretensões de manobra, e pela possibilidade de arcos externos na tensão de operação sobre isoladores poluídos, em condições de garoa ou orvalho.

Admitindo que as sobretensões de manobra e de rejeição de carga sejam removidas, prevalece a exigência de se manter a isolação com a tensão de operação, para isoladores poluídos. Nestas condições, o arco poderá ocorrer com garoa ou orvalho após um longo período sem chuvas, em que haja tempo suficiente para a fixação de uma camada aderente de impurezas na superfície dos isoladores.

Ocorrências deste tipo, apesar de raras, podem tornar impraticável a operação de redes de transmissão, apresentando-se como verdadeiras catástrofes climáticas. Para prevenir tal possibilidade, recomenda-se que o quociente entre a maior tensão de operação e o comprimento escolhido para os isoladores de suspensão não supere cerca de 70 kV/m. A recomendação é válida para isoladores normais e para condições de poluição leve. Para condições diferentes o valor do quociente acima deveria sofrer pequenos ajustes (IEEE Working Group on Insulator Contamination, 1979).

Acontece que para comprimentos de isoladores escolhidos desta forma, em todas as outras condições climáticas, que correspondem certamente a mais de 99% do tempo total, quer sob chuva quer a seco, o arco externo com tensões na frequência de operação ocorreria somente de 2 a 3 vezes acima da tensão nominal.

Existe, portanto, uma potencialidade desperdiçada na isolação do sistema, com relação à tensão na frequência de operação. A possibilidade de operação de linhas de transmissão com tensão superior à nominal fica assim justificada, a menos de outras considerações importantes, mas não essenciais à operação propriamente dita, como as referentes a interferências eletromagnéticas e ao ruído acústico devido a descargas parciais. Estas outras considerações certamente merecem atenção cuidadosa, principalmente em condições de chuva e neblina, mas parecem ser contornáveis em casos práticos, mesmo em condições de operação normal.

O emprego de resistores de pré-inserção em disjuntores com a finalidade de evitar sobretensões de manobra é conhecida há décadas (VASSÍLIEV, 1963; VAN SICKLE, 1939). Disjuntores incorporando um estágio adicional para incluir tais resistores são encontrados comercialmente (BARTHOLD, 1977).

Merece ser destacado o fato de que a inclusão de tais estágios em disjuntores mecânicos, onde tempos de operação curtos exigem acelerações e forças muito grandes, aumenta as dificuldades construtivas, elevando preços e reduzindo a confiabilidade. Parece razoável supor que seu uso em chaves estáticas seja mais fácil.

Os progressos recentes na fabricação de semicondutores de potência tem sido muito importantes. Após sua aplicação bem sucedida na transmissão em Corrente Contínua em Alta Tensão (CCAT), seu uso tem se espalhado por vários outros campos de aplicação. Um caso específico é o de reguladores de tensão por mudança de derivações em transformadores (SERVETAS, VLACHAKIS, 1981).

Apesar da disponibilidade crescente de vários tipos novos de dispositivos, os tiristores convencionais continuam liderando as aplicações de potência elevada (CHEN, 1987). A técnica do disparo de tiristores por fibras óticas, facilita seu uso em tensões altas.

As perdas por descargas parciais sob chuva variam bastante entre linhas de diferentes construções. Considerando, para fixar idéias, apenas linhas linhas trifásicas de 500 kV em operação comercial, encontram-se, na literatura (BARETSKY, ANDERSON, 1968), registros de valores entre 60 e 370 kW/km. No mesmo nível de tensão, com os condutores secos, as perdas não chegam a 10 kW/km.

Para formar uma idéia mais concreta da importância de tais perdas, considere-se um sistema com cerca de 6.000 km de linhas de 440 kV, como o construido pela CESP no estado de São Paulo, e admita-se um valor moderado de perdas por descargas parciais sob chuva de 50 kW/km. Ter-se-ia, neste nível de tensão e numa ocasião em que a chuva se estendesse por todo o estado, perdas (nos 6.000km) de cerca de 300 MW, valor que corresponde a uma usina hidroelétrica de porte médio. Se houver qualquer distração no projeto ou na construção da linha, estas perdas podem facilmente assumir valores surpreendentemente elevados.

É antológico o caso, relatado por MURRIS na Conferência Internacional de Grandes Redes Elétricas (CIGRÉ) de 1978, de linha de 225 kV construída na África, com características iguais a outras que funcionavam perfeitamente na Europa. Tal linha, para grande espanto dos construtores, se apresentava iluminada à noite, mesmo sem chuva, consumindo continuamente, em vazio, uma potência de 57kW/km!

Depois de demorados esforços foi finalmente encontrada uma explicação para o fenômeno. O núcleo dos cabos utilizados tinha sido lubrificado, durante a fabricação, com uma graxa de ponto de fusão relativamente baixo, que escorria até a superfície. Poeira e insetos aderentes à graxa, completavam o quadro de condições ideais para o máximo de perdas por descargas parciais.

Um trabalhoso procedimento de limpeza da superfície dos condutores foi necessário para fazer com que as perdas por descargas parciais a seco voltassem aos valores normais. Ainda de acordo com informações do substancioso trabalho de BARETSKY e ANDERSON (1968), citado acima, as perdas sob chuva são proporcionais ao logaritmo da taxa de precipitação e ao produto da tensão da linha pela 5a potência do gradiente na parte inferior dos condutores.

Percebe-se que as perdas variam muito com o diâmetro externo dos condutores, e que estaria aí, a principal razão da diferença entre as perdas de linhas de diferentes construções. Por outro lado, mesmo em linhas projetadas com cuidado, os valores de perdas sob chuva podem ser suficientemente elevados para exigir a previsão de substancial capacidade de geração adicional para as ocasiões em que a chuva coincidir com as condições de plena carga. Isto ocorre apesar de ser mínima, nos casos costumeiros, a energia perdida no decorrer de um ano, por conta deste tipo de perdas.

Daí resulta, para a maioria das linhas acima de 220 kV (extra e ultra alta tensão) já construídas, o uso condutores com diâmetros amplos, para garantir valores baixos de perdas por descargas parciais. Tal preocupação vem favorecer o desejo de reduzir perdas ohmicas na transmissão, que leva a densidades de corrente relativamente baixas, com folgas substanciais quanto à capacidade térmica dos condutores. Este fato é assinalado por DUNLOP, GUTMAN e MARCHENKO (1979) no seu trabalho sobre limites de carregamento de linhas de extra e ultra alta tensão.

O resultado mais importante a se ter em vista é que, na grande maioria das linhas acima de 220 kV devem existir substanciais folgas na capacidade de corrente que, se forem aproveitadas em combinação com a elevação da tensão de operação, permitirão obter aumentos na capacidade de transmissão na proporção do quadrado da elevação da tensão.

Além disso, fica claro que a implementação da tecnologia de OTV em apenas algumas linhas de uma rede não irá provocar aumentos inaceitáveis de perdas sob chuva na operação acima da tensão nominal.

Como conclusão destes comentários, ficam algumas dúvidas. Estariam já esgotadas todas as possibilidades de se aplicar semicondutores de potência à técnica de transmissão de energia em corrente alternada? Não haveria soluções ainda não tentadas capazes de se tornar costumeiras ou mesmo preferenciais em futuro próximo?

Não seria caso de aperfeiçoar o atual esquema de projeto da isolação de linhas, que procura torná-las capazes de suportar situações raríssimas, que ocorrem a cada 10 ou 20 anos? Não seria razoável utilizar melhor, durante a maior parte do tempo, as margens de segurança necessárias para isto? Não caberia aqui lembrar a tecnologia da construção de automóveis de passageiros, que há uns trinta anos atrás tinham grandes excessos de peso na lataria, hoje fora de moda?

A presente proposta parte do pressuposto de que sejam afirmativas as respostas para as perguntas acima.


Alguns esquemas possíveis

A viabilidade prática da OTVLTCA dependerá de minúcias técnicas, ou seja, da concepção, construção e integração bem sucedida de circuitos e equipamentos capazes de realizar um conjunto definido de funções pouco costumeiras. Idéias iniciais neste sentido podem ser adiantadas desde já. Outras mais deverão ser examinadas oportunamente.

Sendo a OTV aplicável a trechos de linhas ligados a partes do sistema que continuarão funcionando com nível de tensão inalterado, ocorre imediatamente a idéia de se aplicarem auto-transformadores, mais econômicos, neste caso, que transformadores com enrolamentos independentes.

Com auto-transformadores, passa a ser obrigatória a ligação dos seletores de derivações no terminal de alta tensão, o que inspira cuidados sob o ponto de vista da proteção contra sobretensões provenientes da linha aérea. Este problema certamente tem solução, mas a ligação dos seletores do lado de terra, como fazem, por exemplo, FAESTER e GORANSSON (1990), é mais confortável.

O controle rápido de sobretensões por rejeição de carga, com tempo de atuação de alguns milisegundos, exigirá a concepção de novos tipos de equipamentos. Sua realização com semicondutores de potência não deve oferecer maiores dificuldades.


Diretrizes gerais para aplicação

Alguns princípios gerais devem ser lembrados antes de se fazerem estudos mais detalhados, incluindo análises de custo benefício, tendo em vista a aplicação da OTVLTCA a casos concretos.

Ao se procurarem soluções para problemas com uma rede de transmissão, a aplicação da OTV a linhas de corrente alternada existentes constitue uma alternativa à construção de elos de Corrente Contínua em Alta Tensão (CCAT). Em outros casos, ela pode ser considerada seja como alternativa, seja como solução complementar. É o caso de acréscimo de linhas novas, de recapacitação de linhas existentes, de implantação de algumas soluções já conhecidas de transmissão flexível em corrente alternada (TFCA).

Cabe assinalar que a aplicação da técnica da OTV a um determinado trecho de linha deve ser combinada com alguma forma de controle direto de potência ativa transmitida. Para este fim, pode ser implementado um esquema de compensação com capacitores em série. Neste caso, são interessantes soluções integrando transformadores dotados de seletores de derivações com reguladores por modulação de fluxo (IVANOFF, 1996). Outras formas de controle de potência ativa propostas recentemente revistas por WATANABE 1998) no contexto do desenvolvimento de tecnologias TFCA, são também aplicáveis.

Na discussão que se segue, será considerado, para fixar idéias, o caso da aplicação da OTV a linhas existentes. Mesmo assim, vários tipos de estudo são possíveis: além do simples acréscimo de reguladores de tensão e respectivos controles para viabilizar a OTV, pode se fazer o confronto com as alternativas de transmissão em corrente contínua e também com outras soluções já conhecidas de transmissão flexível em corrente alternada.

A redução da tensão em períodos de pouca carga, principalmente à noite, permite diminuir a carga capacitiva do sistema e controlar melhor a tendência à elevação da tensão da rede. Em determinados sistemas tal fato pode constituir vantagem significativa, dispensando a instalação de indutores adicionais no sistema. Como já foi assinalado, ter-se-ia também, nos períodos de chuva, uma redução significativa de perdas por descargas parciais.

Em tais casos, uma verificação preliminar de viabilidade econômica poderia ser feita comparando-se:

  1. o valor capitalizado da energia correspondente à redução de perdas, somado ao custo dos indutores eventualmente necessários, com
  2. o investimento necessário para os reguladores de tensão e respectivos sistemas de controle da tecnologia OTV.

Em casos particulares, como o de linhas mais longas, o resultado desta comparação poderá ser suficiente para assegurar a viabilidade econômica da implantação da OTV. É provável que a aplicação da OTV seja mais fácil de justificar nos casos em que seja desejável o aumento da capacidade de transmissão de determinadas linhas do sistema, afim de eliminar eventuais gargalos que possam ocorrer em situações de carga pesada.

Um problema a ser resolvido na fase de projeto de uma instalação de OTVLTCA é o do alcance dos ajustes de tensão, para mais e para menos da tensão nominal. O valor mais adequado de cada um destes ajustes deverá ser definido com base em estudo das características construtivas das linhas consideradas e de peculiaridades do sistema.

Assim, a redução de tensão no período de carga baixa será a menor capaz de contribuir, pela redução da carga capacitiva, para um controle adequado da tensão no restante do sistema. A redução dependerá do número e do comprimento dos trechos de linhas submetidos ao regime de OTV. A densidade de corrente nos seus condutores não deverá ultrapassar valores aceitáveis. Da mesma forma, para a escolha da excursão da tensão acima da nominal, deverão ser levados em conta: possibilidade de aumento da densidade de corrente dos condutores, incômodos devidos à interferência de rádio e de televisão, distância dos condutores ao solo e possibilidade de seu aumento,... Linhas de tensão mais alta, acima de 220 kV, com vários condutores por fase, com comprimentos na faixa de 250 a 500 km, são normalmente operadas com potências máximas próximas à potência natural (DUNLOP et al., 1979). É bastante comum, em tais linhas, uma elevada capacidade de sobrecarga térmica, conforme foi comentado atrás.

Ao se aumentar a tensão de uma linha transmitindo a potência natural, haverá interesse em se aumentar também a corrente, para manter a igualdade entre as potências reativas indutiva e capacitiva. Desta forma, com a elevação da tensão, o dobro da potência poderá ser transmitida com apenas 41% de aumento na tensão, e igual aumento na corrente, sem que haja demandas de neutralização externa dos reativos da linha.

Ao se estudar a implantação de tecnologia OTV a linhas de um sistema, haverá necessidade de revisão e eventual reforço das reservas de geração local previstas para períodos com chuva. Tal procedimento será recomendável no caso das perdas por descargas parciais além de limites considerados aceitáveis. Poderá haver, também, necessidade de correções pontuais dos níveis de interferências eletromagnéticas - de rádio e de televisão - em locais bem determinados do traçado das linhas.

No confronto com a alternativa de transmissão em corrente contínua, deve ser lembrado que esta exige filtros de custo considerável para retirar harmônicas nas duas extremidades da linha. Tais filtros são desnecessários no caso da solução OTVLTCA, já que a condução se fará sempre por ciclos completos de corrente.


Conclusões

As discussões precedentes não parecem indicar a existência de dificuldades de natureza técnica para a implementação da OTVLTCA, tal como foi aqui descrita. Alguns circuitos novos deverão ser desenvolvidos, especialmente para o controle de sobretensões na rejeição de carga.

A tecnologia parece ser mais atraente para trechos de linhas longos. Para trechos curtos, o custo dos equipamentos a serem instalados nas extremidades pode ser excessivo. A comprovação das vantagens econômicas deverá ser feita pela análise detalhada de casos concretos.


Referências

BARETSKY, M.; ANDERSON, J.G. Corona loss, in: EHV transmission line reference book. Edison Electric Institute, New York, (1968), capítulo 4, p.124-172.

BARTHOLD, L.O. et al. Compaction – a new frontier in transmission research. Paper A 77 648-9, IEEE PES Summer Meeting, Mexico City, July 1977. (Este artigo resume o essencial da referência seguinte).

BARTHOLD, L.O. et al. Transmission line reference book. 115-138 kV compact line design. EPRI, Palo Alto, 1978.

DUNLOP, R.D.; GUTMAN, R.; MARCHENKO, P.P. Analytical develpment of loadability characteristics for EHV and UHV transmission lines. IEEE Trans on PAS, v.98, n.2, p.606-617, March-April 1979.

FAESTER, A.; GORANSSON, H. Electronic tap changers for railway power supplies. ABB Review, p.23-6, Abr. 1990.

HINGORANI, N. Power electronics in electric utilities: role of power electronics in future power sistems. Proc IEEE, v.76, n.4, p.481-2, Apr. 1988.

IEEE Working Group on Insulation Contamination. Applica-tion of insulators in a contaminated environment. IEEE Trans on PAS, v.98, n.5, p.1676-95, Sept.-Oct. 1979.

IVANOFF, D. Simulation of multiwinding nonlinear transformers. Paper A 77 747-9, IEEE PES Summer Meeting, Mexico City, 1977.

IVANOFF, D. Uma classe especial de reguladores de tensão alternada estáticos por modulação de fluxo. Resenha do PEA, Departamento de Engenharia de Energia e Automação Eletricas, EPUSP, 2 fev 1996.

MURRIS, F. International Conference on Large High Voltage Systems (CIGRÉ), Proc. of the 27th Session, v.1 p(22) 43-44, Paris, 1978.

SERVETAS, E.C.; VLACHAKIS, A.V. A new a.c. voltage regulator using thyristors. IEEE Trans on Industrial Electronics and Control Instrumentation. v.IECI-28, n.2, p. 140-5, May 1981.

VAN SICKLE, R.C. Influence of resistance on switching transients. Trans. AIEE,v.58, p397, 1939.

VASSÍLIEV, A.A. Elektritcheskaia tchast’ stantsyi i podstantsyi. (Parte elétrica de estações e subestações).

G.E.I., Moscou, 1963. (Resistores de pré-inserção para a redução de sobretensões na abertura de curto circuitos são analizados à pg.203).

WATANABE, E. H. et al. Tecnologia FACTS – tutorial. SBA Controle e Automação, v.9, n.1, p.39-55, jan.-abr. 1998.


Palavras-chave: currículo Dimetri Ivanoff


http://pgla03.events.pennnet.com/content.cfm?Navid=1024&Language=Port

http://ruy.exel.com.br/ie/circulares/20000608a.html

-- GregorioIvanoff - 13 Feb 2006
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